quinta-feira, 22 de julho de 2021

Tal qual Maiakovski

 Adultos


Os adultos fazem negócios.

Têm rublos nos bolsos.

Quer amor? Pois não!

Ei-lo por cem rublos!

E eu, sem casa e sem teto, com as mãos metidas nos bolsos rasgados, vagava assombrado.

À noite vestis os melhores trajes e ides descansar sobre viúvas ou casadas.

A mim Moscou me sufocava de abraços com seus infinitos anéis de praças.

Nos corações, no bate o pêndulo dos amantes.

Como se exaltam as duplas no leito do amor!

Eu, que sou a Praça da Paixão, surpreendo o pulsar selvagem do coração das capitais.

Desabotoado, o coração quase de fora, abria-me ao sol e aos jatos díágua.

Entrai com vossas paixões! Galgai-me com vossos amores!

Doravante não sou mais dono de meu coração!

Nos demais - eu sei, qualquer um o sabe!

O coração tem domicílio no peito.

Comigo a anatomia ficou louca.

Sou todo coração - em todas as partes palpita.

Oh! Quantas são as primaveras em vinte anos acesas nesta fornalha!

Uma tal carga acumulada torna-se simplesmente insuportável.

Insuportável não para os versos de veras.

Vladimir Maiakovski 



domingo, 20 de junho de 2021

Homeopatia cotidiana n°10

 Fazia 2 ou 3 semanas que não tinha notícias de Rubens.

" Por incrível, não lhe estava fazendo falta. Será isso que acontece com os casais casados por 50 anos ou mais? Fazia ao menos 1000 anos que estavam juntos. O relacionamento  fora selado no Sonhar, não há nada que o desfaça. Ele saberia disso? Ela sim. 

Se ele não sabia, sentia. 

Apesar de se esforçar pra não sentir ou pensar, a Lua, túrgida e vermelha continuava a lhe esperar e rondar suas horas livres."

Pensou tudo isso em um átimo,  em um piscar de olhos. 

Voltou ao seu cotidiano. Às suas orquídeas, peônias, cactos, boldo,  alecrim. Aos gatos, aos escritos ainda não publicados, aos anos que se passaram... O passado andava muito presente em seus dias... Sinal de que estava envelhecendo e vivendo de lembranças. 

Rubens, Rubens... poderíamos ter dado muito certo. Nossos tempos não estavam sincronizados, nossos relógios usavam fusos diferentes. Foi só esse detalhe. Só esse...

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Dois ou três versos que explicam quase tudo. 1

A gente andou pela lua
Mas nunca andou de metrô...

domingo, 25 de abril de 2021

Nao há nada de novo debaixo do sol -1

 Tá lá o amor no meu coração. 


Nenhum palpite,
Opinião
Ou vontade de dizer alguma coisa.

(Nenhum capricho ou devoção, ainda assim o julgamento).

As mesmas paixões,
Há mais de 20 anos,
A mesma sangria,
A mesma loucura nesse mundo insano. 

(Todos os delitos no meu prontuário,
Ainda assim as mesmas atitudes incertas e incautas).

Mil novas paixões 
Desde os 15, 16 anos 
Todas procurando reciclar o mesmo ideal,
O mesmo complexo de Electra 
Há mais de dez mil anos. 

(Todas as culpas sobre mim,
Ainda assim a leveza da alma branca).

Nenhuma nova paixão, 
Nos últimos três meses;
Nenhuma com final feliz
Durante a vida inteira.

Saúde física e mental beirando ao descontrole,
Ainda assim a persistência do coração. 

Tá lá o amor no meu coração. 

terça-feira, 13 de abril de 2021

Homeopatia cotidiana n° 9

Não se afobe  não, que nada é pra já...


quinta-feira, 8 de abril de 2021

Homeopatia cotidiana n°8

 O que será que anda fazendo aquele velho babaca? - Por um minuto a imagem de Rubens lhe surgiu à mente. Como chegou ao ponto de lhe adjetivar assim? Era tão apaixonada por ele quando novinha... Achava lindo tudo o que ele escrevia e dizia... Lembrou dos cafés que tomavam juntos, clandestinos. Ele sempre lhe trazia um chocolate. Branco. Recordou o dia em que levou, sem que ele notasse,  uma folha batida à máquina. Que triste e linda poesia era aquela! Era sobre o criador de gatos, era sobre ele! Não resistiu e a enviou ao colega que cuidava da redação de um programa, desses fora do radar, que passava na tv cultura. Uma pena e um crime terem suplantado alguns versos e mudado o final. Tantas lembranças... Tantos sentimentos... Quem sabe ligaria pra ele no dia seguinte... Ainda teria que avaliar se valeria a pena correr o risco de não ser atendida, ou pior: ser maltratada. Voltou a cuidar de suas flores. Orquídeas e peônias. Ah, as peônias...

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Homeopatia cotidiana n° 7

 - O que você quer comigo? - esbraveja Rubens ao atender o telefone que havia tocado inúmeras vezes durante os dois ou três dias que resolveu sumir do mapa. Sumir dentro de si mesmo, pois continuava dentro do apartamento cuidando de suas duas gatas. 

- Quero saber se está bem, sumiu, não deu notícias. Além do que, me deixou em maus lençóis com o pessoal da revista online. Não manda nada faz 4 semanas. 

-Não vou mais mandar. 

- Como assim? Temos um contrato! E você me deve essa! 

-Vá pro inferno, Selene. Não te devo nada.  Vá você e o pessoal da revista também. Revista online é uma piada! 

-Eu devia saber, aliás, eu sempre soube. Você é um grosseiro, um velhote que vai acabar os dias sozinho catando cocô de gato! - desliga o telefone celular emputecida. Chora de raiva. Como pôde gastar tempo e sentimento com um cara patife como esse!?

"Mulherzinha intragável", pensa Rubens dando meia volta até o sofá, de cuecas frouxas, cabelo e barba por fazer... "Velhote", o que ela quis insinuar? Uma piada. Ela e todo o resto desse pessoal do "online". 

"Velhote "

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"Velhote"... 

Adormece.