sábado, 23 de abril de 2022

Delicadezas

 "E amei-te sem saberes

amei-te sem o saber

amando de te procurar

amando de te inventar

.

Para me acostumar

à tua intermitente ausência

ensinei às timbilas

a espera do silêncio"

.

- Mia Couto.

domingo, 10 de abril de 2022

Homeopatia cotidiana n°13

 Aquele teu chaveiro escrito love...

Rita escutava músicas aleatórias no rádio do carro e, ao acaso, (como costuma ser com as coisas boas da vida) ouve "Eu dedico essa música à primeira garota que está sentada ali na fila". 

Lembra o dia em que no bar, hoje já não mais na ativa (como muitas coisas do passado), deu aquele beijo apaixonado e pueril em Rubens. Onde andaria Rubens? E os outros? Selene, Calíope, Cláudio, Mirno? Aquela turma toda que sempre andavam juntos?

Bom, andou lendo algumas coisas de Rubens pela Internet, (algo que nem imaginavam que iria funcionar da maneira que é hoje). Sabia que Selene tinha tido um lance com Rubens. Era trabalho e também sexo. Editava algumas coisas dele. Era trabalho e também sexo... mas parecia ser algo a mais. Eles se entendiam muito bem, parecia, muitas vezes, que só pelo olhar. Não entendia o motivo de não terem passado daquilo, olhares que se entendiam... 

Calíope,a tinha visto uns anos atrás, quase virando freira da igreja católica. Como as coisas, com ela, chegaram nesse ponto? Uma linda e sexy ruiva... Sempre com o colar que Cláudio havia trazido do Egito pra ela, (dizia ele que tinha ido buscar na tumba de um faraó. A gente ria disso).   O que, dentro dela, em sua psique a fez seguir o caminho da rigidez católica? Será que recebeu uma iluminação?Uma mensagem cifrada, só por ela entendida? Quem é que um dia entenderá as opções e destinos de cada um?

Mirno havia desistido do amor. Depois que Selene  apaixonou-se  por Cláudio e inevitavelmente tiveram um caso, desistiu. Encontrou uma dentista balzaquiana passada e se encostou. Sempre com a necessidade de vida tranquila e segura, mas, que ele mesmo não havia feito nenhum esforço pra conquistar. Achou a tal dentista e foi-se. Até filhos teve. Que era pra garantir ainda mais a segurança financeira que a tal dentista lhe proporcionava. 

Cláudio, ah... Cláudio. Nunca mais havia visto. Nem tido notícias. Sumiu do mapa. Onde andaria Cláudio?

sexta-feira, 8 de abril de 2022

MDC

 O passado.

Ah, as lembranças...

23:30 Paulistânia fechado. 

Provavelmente falido.

Um passado que não deu certo. 

Como eu.

Como você.

segunda-feira, 7 de março de 2022

À musa


Quanto, à noite, espero a tua chegada,

a vida me parece suspensa por um fio.

Que importam juventude, glória, liberdade,

quando enfim aparece a hóspede querida

trazendo nas mãos a sua rústica flauta?

Ei-la que vem. Soergue o seu véu,

olha para mim atentamente.

E lhe pergunto: “Foste tu quem a Dante

ditou as páginas do Inferno?”. E ela: “Sim, fui eu”.


Anna Akhmátova


Tradução de Lauro Machado Coelho

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Devaneios

 Mistério sempre há de pintar por aí e agora eu era inglês e meu cavalo só falava herói.

Todos iguais. Que eu, que dois, que dez, que dez milhões. Vem, me de a mão que a gente nem tinha nascido para sentir medo. 


domingo, 14 de novembro de 2021

Pro - nomes

 Eu.

Tão sem razão quanto significado.
Tu.
Um apanhado de papéis batidos à máquina.
Ele.
Qualquer estranho a me observar.
Nós.
Existência confinada à uma Bagdá em decaimento.
Vós.
Senhoras esperando retratação.
Eles.
Autômatos caminhando pelas ruas.

Nada tem significado ou significância.
Somos ilusão de um deus psicodélico.

Sem título

 Tu me suicidas, tão docilmente.

Eu te morrerei, porém, num dia.

Eu conheceremos essa mulher ideal

e nevarei lentamente sobre sua boca.

E choverei na certa mesmo que eu entardeça,

mesmo que eu faça bom tempo.


Nós amareis tão pouco nossos olhos

e cairá esta lágrima sem

razão, certamente, e sem tristeza.

Sem.


Robert Desnos