sábado, 29 de julho de 2023

Homeopatia cotidiana n° 15

 Desgraçado.

Era isso o que pensava sobre Rubens.  Um filho da puta de marca maior.

Não se dava ao trabalho de atender suas chamadas (agora que tinha um celular e podia saber quem estava chamando antes de atender). Não respondia suas mensagens. Nem se quer as lia. 

O que foi exatamente que ela fez que o deixou assim? Indiferente, insensível, desinteressado...

Eles eram insuperáveis, jovens, lindos e invejáveis juntos! Onde foi que se perderam? Ele era pra ela um deus, um astro, um modelo a seguir! Ela era tão apaixonada... Tinha certeza que algo iria acontecer e o destino os faria um casal. Não foi o que aconteceu. Cada um foi cuidar de sua vida. Mas ela jamais, jamais o esqueceu. Se contentaria agora em manter uma amizade, trocar ideias sobre a vida, uns cafés juntos apenas. Mas nem isso ele queria...


Filho da puta.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

A FLAUTA-VÉRTEBRA

 

A todas vocês,

que eu amei e que eu amo,

ícones guardados num coração-caverna,

como quem num banquete ergue a taça e

                                         [ celebra,

repleto de versos levanto meu crânio.


Penso, mais de uma vez:

seria melhor talvez

pôr-me o ponto final de um balaço.

Em todo caso

eu

hoje vou dar meu concerto de adeus.


Memória!

Convoca aos salões do cérebro

um renque inumerável de amadas.

Verte o riso de pupila em pupila,

veste a noite de núpcias passadas.

De corpo a corpo verta a alegria.

esta noite ficará na História.

Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras.


Vladimir Maiakovski

sábado, 22 de outubro de 2022

Ainda sobre saudade


Há tempo, muito tempo

Que estou longe de casa 

E nessas ilhas 

 Cheias de distância

O meu blusão de couro

Se estragou 

 


sábado, 8 de outubro de 2022

Só os inimigos trazem flores - uma lembrança

 Defesa a gente só usa contra amigos e mulher que a gente ama. Só a opinião deles é que pode alegrar ou mortificar, Manuel. A gente só entra franco e de peito aberto nos inimigos.


Antônio Callado

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Homeopatia cotidiana n°14

 Já fazia um bom tempo que se apartara de Rubens e de toda a sua irascível genialidade.

Com tanta coisa a resolver e a sobrevivência diária e o cotidiano a se vencer, havia se distanciado da figura  antitética (do grego antithetikós) que ele representava para ela. 

Numa pausa inesperada na rotina maçante, pode descansar seu pensamento e seus ouvidos, quando no rádio ouviu "Baby" na voz de Gal. 

Rubens surgiu diante de seus olhos, aquele Rubens. O maior antagonismo de sua vida. O cara que sabia tanto e ela que pouco sabia. A menina que se apaixonou pelo professor. O ciúme que sabia, não podia sentir mas sentia. Não tinha lógica todos os sentimentos e pensamentos e mesmo todos os planos que fazia sobre seu futuro com Rubens. Mesmo assim os fazia. Numa realidade paralela, num mundo diferente, num futuro onde tudo pode acontecer... 

Uma lágrima escapou de seu olho esquerdo chamando-a de volta à realidade. 

"Esqueci novamente os remédios!" Ansiolíticos, anti-hipertensivo, quetiapinas e aspirinas... Coloca todos de uma vez na boca, engole com um pouco do café que descansava  frio na xícara. 

A gata mia no seu pé pedindo ração, o alecrim quase implora por água, a chaleira apita pronta  para o chá.  A imagem de Rubens vai se apagando de sua mente, mas não por completo. Fica como uma marca d'água...


Baby, baby, eu sei que é assim...


Baby, baby, o inferno é o fogo do sol...

 

"Belo é o que nos arranca do tédio e do cinza contemporâneo e nos reapresenta modos heroicos, sagrados ou ingênuos e de viver ou de pensar. Bela é a metáfora ardida, a palavra concreta, o ritmo forte. Belo é o que deixa entrever, pelo novo da aparência, o originário e o vital da essência. Por isso, o belo é raro."

 Alfredo Bosi 

sábado, 27 de agosto de 2022

Não há título para a saudade

 Alice:- “Receio nunca mais vê-lo”.

Chapeleiro: - “Nos jardins da memória, no palácio dos sonhos, lá vamos nos encontrar.”

Alice : - “Mas um sonho não é realidade..”

Chapeleiro: “Quem pode dizer qual é qual?” 

(Alice através do espelho)